Se não pela idade cronológica, de quais outras formas nos reconhecemos enquanto pessoas adultas? Nos deparamos com a diferença entre ser e reconhecer-se adulto. Manoel de Barros diz “acho que o quintal que a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas…” e, talvez, crescer tenha também alguma coisa disso: dar-se conta de coisas que não chegavam aos nossos olhos quando éramos crianças.

Uma chegada anunciada

Muitas coisas anunciam a chegada dessa etapa: a capacidade de se sustentar financeira e emocionalmente, sair da casa dos pais, lidar com as frustrações e as responsabilidades diárias da vida e ter de encará-las como o principal responsável por dar conta delas. Uma imensidão de questionamentos surgem, os medos aparecem, as perdas acontecem. Perdermos laços, referências, espaços, segurança. Passamos a ter de calcular nossas próprias rotas, sustentar escolhas etc.

Quando penso sobre crescer, também penso sobre a canção de Belchior que diz “ainda somos os mesmo e vivemos como nossos pais” porque percebo que crescer também está aí, reconhecer-nos em nossos pais, viver o que um dia eles também viveram.

E talvez seja justamente nesse momento que nos deparamos com as nossas contradições, ao percebermos que aquilo que rejeitamos neles, muitas vezes, também faz morada em nós. Descobrimos que não saímos ilesos da família que temos, dos pais que nos criaram. Carregamos muito deles e vamos percebendo isso nas sutilezas, nas brechas e nos rastros que permanecem, quase como se viessem nos denunciar.

Uma vida com novas exigências e novos olhares

É também à medida que crescemos que acompanhamos o envelhecimento dos nossos pais. Enxergamos nossas próprias mudanças, percebemos o que ficou para trás e já não faz sentido. E, diante disso, surge o receio de perdê-los e, junto deles, perder também uma parte da nossa história, das nossas referências e de quem fomos.

Tornar-se adulto é ter de se despedir de muitas coisas. De pessoas que um dia fomos, de sonhos que precisaram ser abandonados para dar espaço a outras possibilidades, de versões de nós mesmos que idealizamos e não tivemos condições de alcançar.

Mas crescer também é construir o próprio quintal. É dar-se conta das escolhas que fazemos, caminhar ao lado de quem escolhemos e continuar desejando.

O adulto deixa de brincar, mas, ao crescer, substitui o brincar pelo fantasiar.

Quando somos crianças, nos questionam a todo tempo “o que você quer ser quando crescer?” e depois que crescemos, essa pergunta parece desaparecer. Não vem de outras pessoas e também não vem da gente, mas acredito que isso deveria permanecer pela vida inteira:
o que eu quero ser quando crescer? Afinal, depois da infância, ainda tem muita vida pela frente. Crescer não é chegar a uma versão definitiva. Depois de grandes, a gente pode continuar sendo e querendo ser. Ou até mesmo: o que eu sou agora que cresci? enquanto existe vida exige-se movimento. Há algo de inacabado em estar vivo.

Hèléne Cixous e o tornar-se adulto

O conceito de tornar-se adulto está situado no território da incerteza, da linguagem, da emancipação do corpo.

Trecho de A chegada da escrita: Tornar-se adulto talvez seja não se perguntar mais de onde venho, para onde vou, quem sou. Afastar o passado, desviar do futuro? Colocar a História em seu lugar? Talvez. Mas qual é a mulher poupada pela interrogação? Você também não se pergunta: quem sou eu? Quem eu fui? Por que eu? Por que não eu? Você não treme de incerteza? Você
não é como eu? Não fica se debatendo incessantemente para não cair na armadilha? O que significa que você já está na armadilha, porque o medo de duvidar já é a dúvida que você teme.

Talvez crescer seja justamente não abandonar completamente essas perguntas.
Talvez amadurecer não seja deixar de perguntar, mas poder sustentar que algumas perguntas permanecem abertas.
E que, mesmo depois de grandes, ainda estamos crescendo, desejando, temendo, duvidando. Afinal, isso também é a vida.